terça-feira, 27 de abril de 2010

embora a caçasse desesperadamente. Buscava a honestidade em cada buraquinho, em qualquer muro erguido com hipocrisia, mentira ou vaidade.


Há muito o que lhe restava era uma vaga esperança de que, por mais negada que fosse, insistia em sobreviver.

A principio, a esperança era forte e movia sua vida, mas era só uma jovem e imatura esperança. O tempo lhe enfraqueceu. Não! Não foi o tempo, foram os desgostos, os desamores, as mentiras, a indiferença.

Era, também ele, tolo: desgastava-se por completo para que a esperança se mostrasse certa, não desistia até a ultima palavra, a ultima lágrima e, por vezes, até que lhe fosse tirada a última gota de dignidade que, por ventura, à esperança salvasse.

Amigos, paixonites, falsos amores... Inexoravelmente, acabavam com uma grande decepção. Tal decepção, que deveria ser, progressivamente, menor, visto que ele acostumar-se-ia, era, em verdade, cada vez mais desesperadora, pois magoava a já abatida esperança de não decepcionar-se.

Mas chegou o dia que, quando era forte a esperança, ele jamais pensara que chegaria. Chegou o dia em que amordaçou e ilhou a esperança, pôs-se a viver no mundo aceitando que, cedo ou tarde, a decepção viria. O fez não por ser covarde, mas nada mais lhe restava, já havia surrado em demasia seu coração por um sonho tolo, imaturo e juvenil que jamais chegaria. A história terminaria por aqui -- e ele viveria o resto da sua vida medíocre feliz, ainda que incompleto -- se não houvesse surgido um alguém que lhe aparecera com um ar de quem trazia a mesma velha esperança dentro de si.

Vendo esse alguém, seu sentimento ilhado, morto e amordaçado, voltou a incomodar. Lembrou-se de quando era tolo e todo ferimentos que seguir tal esperança havia lhe causado, pensou em não mais segui-lo. Foram inúmeras as razões, mas não pode convencer a si mesmo. A esperança tomou-o, era ela novamente forte.

Tolo foi ele mais uma vez. E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali; e decidiu entrar de vez naquela dança. E nisso cegou seus olhos. Quando avistou a decepção, não aceitou-a, aceitaria qualquer outra explicação... não havia. Foi até o ultimo suspiro, e além. Lutou contra a decepção, essa pantera, que era da esperança companheira inseparável, não pode vencê-la, não se rendeu, no entanto. Decidiu mantê-la viva. De que vale a vida se não há esperança?


Assim, ainda que decrépita e sem qualquer apoio da razão, em seu peito ainda vive a esperança.

8 Comments:

  1. Nina Vieira said...
    Nossa. Isso tudo escrito foi pra mim, tenho certeza.
    E nunca me cansei de ter esperança, sabia? Nessa vida, é a última que morre e a unica que nos resta.
    Abraço.
    Heitor Cardoso said...
    Agradeço o comentário :) Bem, felizmente eu não me vejo como os outros vêem... Mas enfim, talvez por isso ainda saia algo de bom.

    ...

    Confesso que nunca parei o bastante por aqui, talvez seja hora de mudar essa rotina.

    Deixo um beijo e a promessa de voltar.

    Até breve!
    Gabriela Domiciano said...
    Olá,

    O que quiz dizer com meu texto é mais ou menos isso q vc escreveu:
    "Chegou o dia em que amordaçou e ilhou a esperança, pôs-se a viver no mundo aceitando que, cedo ou tarde, a decepção viria. O fez não por ser covarde, mas nada mais lhe restava, já havia surrado em demasia seu coração por um sonho tolo, imaturo e juvenil que jamais chegaria"

    Mas não importa tanto o que eu quiz dizer, a interpretação dada pelos outros tb é mt importante.

    =)
    Gabriela Domiciano said...
    ou outra resposta:

    Todos são destinos de boeiros, somos os fatos que vamos acumulando durante a vida. Eu sei bem das minhas verdades, não tapo elas não, pelo menos admito elas para mim, o que não significa que as escancare para os outros.

    Mas não importa tanto o que eu quiz dizer, a partir do momento em que se publica algo, abre-se espaço para inúmeras interpretações que são tão válidas quanto o que eu quiz dizer.

    =)
    Daniela Filipini said...
    E que esta nunca morrá!
    Lembra de mim? rs
    Caso não se lembre, sou a "autora" do blog ehpuramagia, que desativei há pouco mais de um ano.. Hoje resolvi dar uma olhada nos poucos comentários que encontrei no último post e vi um comentário seu, resolvi visitar e vejo que não foi em vão.
    De qualquer forma, você escreve melhor do que eu me lembrava, cuide-se.
    Olga Durães said...
    No fundo a gente morre de medo dela..
    Daniela Filipini said...
    Pois é, não deixei rastro. Mas hoje estou aqui.. rs-
    Eu, Thiago Assis said...
    muito bem pensadas as citações musicais em meio ao texto.. elas vieram durante o texto ser feito ou vc pegou-as e, a partir delas, desenhou o texto ao redor?

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