sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

"Vai passar"?

Nossa pátria mãe, tão alienada, ainda que perceba as tenebrosas transações, nada faz...



Nossa indignação mesclada à preguiça, à descrença, ao desânimo...

Esse hábito nojento, triste e tão comum de fechar os olhos e fingir acreditar que os problemas irão sumir

Nada disso vai passar.

Esse habito triste, mais que tudo desumano, de se habituar com o que há de ruim; de repreender quem escapa desse falso senso de correto

Antes, os políticos do Brasil ainda fingiam se envergonhar quando flagrados em práticas corruptas, agora já não mais.
Antes, as pessoas ainda fingiam-se empenhadas a mudar para melhor no ano que seguir-se-ia, agora já nem isso.

Apesar de vivermos tudo que vivemos; de não termos vivido nada daquilo que poderíamos, continuaremos os mesmos...

E o pior é que descendemos aos poucos, dando tempo para acostumar-mos com nossa progressiva desumanização. Ultimamente, nada mais humano do que tentar deixar de sê-lo.

Viva à mediocridade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

É reservado, a todo ser humano, o direito de trair.

Parágrafo único: O indivíduo deve ser livre para criar e libertar-se de qualquer vinculo, quando bem entender. 

Eis o direito da liberdade.

"Cheia de sonhos, promessas... e queixas, queixas, queixas"

Foi ela quem quis. 

Ele a conheceu assim, não podia reclamar dos seus altos e baixos. 
Não reclamava quando ela usava a saia muito curta, ou quando ela bebia demais e parecia que ficaria com outro alguém ali, bem em frente a ele.

Ele também não era tão bom moço, só seguia suas regras de moral e conduta. Sabia que o que ela queria era que ele lhe pusesse os arreios e lhe dissesse o que fazer. Um dia ele experimentou puxa-la pelos cabelos, ela gostou, mas ele não gostou que ela tivesse gostado, não fez mais. 

Ele não sabia maltratar; maltrata-la seria maltratar mais a si mesmo. Caracterizava-se uma situação em que não seria ironia dizer: "isso vai doer mais em mim que em você".

Quando descobriu que ela o havia traido não sentiu raiva, tristeza, talvez.
Passou na floricultura, pensou em comprar-lhe uma rosa vermelha e dizer-lhe que, para ela, ele foi só amor, mas terminou por comprar uma negra, ainda com os espinhos, dizer-lhe-ia que ela foi dor e mistério.

Ela amava a dor, ele amava o mistério.
Não, não era bem o mistério. O que ele amava era o mistério que ela era.

Levou-lhe a flor, ela chorou, ainda na porta. Ainda na porta o convidou para entrar, talvez achasse que a flor do seu sexo pudesse compensar as feridas que abriram seus espinhos.

Ele a entendia.
Não, não era bem entender. Ele apenas amava. 
Mas não amava ela, amava o mistério que era ela.
Amava nela a liberdade, a libertinagem, a independência, o desembaraço, a imoralidade.

Ele a amava, e mais, a admirava porque pensava que ela era livre de tudo, mas não era. 

Ela era prisioneira da liberdade.

sábado, 5 de setembro de 2009

Há um tipo de gente...

que não pode ser esteriotipado. Ele era desses. Não por escolha, nem gosto, só não se adaptava a outra forma de ser, embora, às vezes, tentasse¹...

-- 1 -- flashback

Dia nostálgico, mais uma aventura que chega ao fim, mais uma relação que morre antes que fique forte demais. No início ele ficava deveras triste, agora já era habitual.
Havia decidido mudar, fazer como todo mundo faz. Logo mais, a noite, iria a festa do sábado a noite. Passou no mercado, pensou em levar um vinho e um queijo, mas estava decidido, pegou vodka e energético. Já saindo, passou pela adega e cruzou o olhar com o de Júlia, ela sorriu. Olhos de ressaca, ar de quimera, sorriso monalisa, e seu pensamento todo nela. Pensou em voltar, pela necessidade que às vezes temos de fazer uma idiotice qualquer. Sabia que iria terminar mal, durasse uma noite ou um mês. Estava certo.

Ainda que queira, o Homem não pode fugir de sua natureza².

-- 2 -- fábula

O Sapo e o Escorpião
O Escorpião não podia mais ficar ali, precisava atravessar o rio, não podia espera-lo secar, tampouco. Avistou um Sapo e a ele foi pedir ajuda.
-- Sapo, preciso de sua ajuda, imploro-te que ajude-me a atravessar o rio.

-- Lamento, Escorpião, mas ainda que eu queira ajudar-te, fazê-lo seria suicidio, pois tú picar-me-ia.
-- Não sejas tolo, caso eu te picasse, ambos afundariamos e pereceriamos no fundo do rio.
Convencido pela lógica do Escorpião, o Sapo cedeu a seu pedido e o carregou em suas costas para que atravessassem o rio. À meio caminho da margem de chegada, o Sapo sentiu uma ardente picada em suas costas, que mais doía pela dor de ter sido traído.
-- Porque, Escorpião, porque? Agora afundaremos ambos.
-- Sinto muito, Sapo, mas é minha natureza
.

... Desistindo de ser alguém que não a si mesmo, conheceu Ciça...

[Memórias distorcidas de uma mente confusa -- Parte I]

domingo, 26 de julho de 2009

Alcateia desvairada

Era ele o macho alfa, o provedor.


Saia à caça todos os dias, pois, se não saisse, não havia quem saisse por ele. Era ele o macho alfa.

Cuidava, ele, dos lobinhos, da loba e dos lobos seus amigos e, às vezes, de lobos e não lobos mais fracos, que não tinham a quem recorrer, afinal era ele um macho alfa.

Alguns lobos dariam uma pata e seus caninos para ser como ele, e o que ele não daria para não ser?

Não que ele não gostasse de ser o Alfa, mas às vezes...Só às vezes, ele queria não sê-lo.

A caça nem sempre era boa, nem sempre dava para todos.
No início, ele repartia... Mas não podia ver os seus com fome, então passou a alimentar primeiro os seus, depois os outros, e era condenado por isso.

Ensinara outros lobos a caçarem como ele, mas esses outros estavam muito aquém do provedor que ele era, o que deixava claro porque era ele, e não outro, o macho alfa.

A qualquer um do seu bando que tivesse problemas ele acudiria, e acudia. Todos tinham o macho alfa para lhes salvar, mas quem salvaria o macho alfa se ele precisasse?
Ninguém, ele sabia disso.

Vivia em seu mundo, zelando por todos, sempre calado. Era um herói. Infeliz, mas heróico.

Um belo dia o macho alfa decidiu mudar, e fazer tudo que queria fazer. Ele já estava a flor da pele, daquele jeito não podia mais prosseguir. O macho alfa seguiu seu rumo, sem se preocupar com as incumbências do antigo posto, largara o cargo, mas sem encargo, muito já havia feito por todos aqueles agregados.

Por onde anda o lobo? É feliz? Arrependera-se? Não se sabe. Mas é certo que, depois de experimentar a liberdade, ele jamais voltou.

A alcateia sobreviveu... Aprenderam a se virar. Mas a boa ventura como a dos tempos do macho alfa, jamais se viu.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ela

Por ali todos que passavam a achavam deslumbrante. Era ela, para todos os passantes, a mais bela de todas árvores. Não sabia, porém, ela que possuia tal beleza, estonteante.

O caso é que, de fato, ninguém havia lhe contado, por mais que houvesse reparado, que era ela impar, apaixonante.
Tudo era muito obvio, não calhava dizer, posto que indubtavelmente ela saberia, muitos já deviam ter-lhe falado.

Veja, então que logo ela, a mais bela da floresta, acreditava-se desdenhada. Nela ninguém tocava, não lhe tiravam ramos, nem rosas, nem mesmo lhe riscavam o casco.

Ela, então, desapontada, decidiu não dar mais nada, nem pólen, nem flor, nem folha, nem fruto, não seria mais espectadora de tão esnobe mundo.

Passou, então, a ser a árvore sem quê nem pra quê, cheia de passado, mas sem presente nem futuro.

Disseram, aí, que ela não tinha mais porvir, nem devir, era só uma a mais no mundo.
Já não adiantava todo zelo e cuidado, a bela árvore virara puro casco e, depois, veio a vez da floresta, e tudo virou pasto.

terça-feira, 21 de abril de 2009

"Havia uma pedra no meio do caminho..."

Seu orgulho era a pedra.


Seus olhos penetravam os dela e os dela os seus. Desviavam-se, penetravam-se novamente.
O momento carecia de atitude.

Ele era uma infinidade de equações inacabadas em busca da Liberdade.
Ela era uma porção de certezas arbitrárias as quais chamava Verdade.

Ele quis dizer-lhe impropérios havia pensado, desculpas indevidas, perguntas que havia ensaiado...
Ela queria chorar pelo que haviam sofrido, beijar-lhe pelo que haviam se amado, esquecer-se do que haviam passado...


Lembraram-se, simultâneamente, das traições. Culpavam-se, mas não eram culpados.
Eram como são os criminosos que cometem o crime preparado pela sociedade.
Ele não a culpava, ela, tampouco, culpava ele.
Ambos culpavam a si própios por terem traído o outro. Ambos amavam terceiros.

Havia paixão entre os dois; havia amor da parte dele, ela estava confusa. A relação entre eles era mais simbiótica que amorosa.

Ainda havia tempo, poderiam voltar atrás, se quisessem. Queriam. Ele estava certo disso, ela estava confusa.

A história dos dois tomaria o rumo definido por ele, naquele momento. Ela tinha certeza que, como sempre, ele sabia o que fazer; ele estava confuso, pois acreditava que, ao menos uma vez, ela tivesse certeza de algo.

A admirou por alguns instantes, tinha taquicardia, mas fingiu-se indiferente. Ela fez o mesmo. -- Eram iguais, embora diferentes. O Infante e A Princesa. -- Passou por ela, pensou em olhar pra trás, teria visto que ela o olhara, se o tivesse concretizado seu pensamento. Sorriu, e seguiu seu caminho, sua vida.

Agora,

( Calisto e Anita -- Parte II )

terça-feira, 14 de abril de 2009

O que mais doía naquelas feridas...

era saber que iriam sarar.


E, sarando, ele tinha a certeza que por mais forte que fosse a paixão, mesmo dessas que deixam cicatrizes, seria fugaz.

Mas, diferente das outras, essa resistia em se esvair. Buscava abrir novas feridas (com novas paixões) para que as velhas se fechassem mais rápido, mas era duplamente inútil. As velhas feridas não saravam e a surra de amor que levara deixara sua pele deveras rígida, já não se feria como antes.

Ele ainda poderia beija-la. A força, ela gostaria.
Mas não se humilharia mais por ela, estava decidido.

Aquela outra que sempre esteve a sua disposição agora parecia ainda mais interessante, tamanha era sua vontade de esquecer a que lhe prendera a alma. Ficaria com ela, estava decidido.

Caminhava sem olhar para os lados. Julgava-se forte, se se esbarrassem com ele, não seria ele quem cairia. Não se preocupava com os outros, estava cansado de se preocupar com os outros. Agora só cuidaria de si, estava decidido.

Pensamentos iam e viam. Tinha que decidir uma coisa de vez e não voltar a pensar nela, sabia disso.

"Estrelas mudam de lugar, chegam mais perto só pra ver..." -- A trilha sonora confundia-lhe as idéias, mudava-a a todo instante, mas não ajudava.

Entendia que uma interferência externa era necessária para que aqueles pensamentos deixassem de tortura-lhe o intelecto.

Poderia ter esbarrado com qualquer um.
Mas esbarrou-se com ela.

( Calisto e Anita -- Parte I )