segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
No fundo do poço a luz vem de cima e a via é única, difícil é se perder. No dia claro, é luz pra todo lado, de um jeito que o sujeito nem sabe ao certo pra onde ir. Na cova não tem luz, nem ter faria sentido, visto que se o indivíduo tá morto, não tem mais necessidade de iluminação. Isso é de percepção fácil e simples, coisa que qualquer ignorante de nível médio urbano poderia se dar conta. Coisa complexa mesmo era a iluminação da Casa de Espelhos, lugar onde vivia Edgar e onde, pela primeira vez, ele encontrou Clarice.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia
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domingo, 27 de novembro de 2011
Pelos olhos de Alice, o mundo era grotescamente sem sentido. Não que do lado de dentro dos seus olhos as ideias não se arrumassem em uma lógica aceitável, do lado de fora deles é que os fatos tinham a mesma coerência da felicidade de quem é feliz pelas conquistas dos outros.
Alice amava Ricardo (que amava Kika, que nem amar amava), até que ele a fez desistir dos homens. Eles eram um casal muito feliz, tão felizes que Ricardo nem conseguiu suportar.
-- Então, Alice, é assim, eu me sinto tão bem ao seu lado que não dá pra deixar de pensar que tem alguma coisa errada... eu paro pra pensar e vejo que você nem é tão boa assim, porque porra eu gosto de você?
-- Cara, cala a boca e deixa de ser babaca, deixa eu só continuar te amando.
Ele não calou nem deixou, mas quem sou eu pra julgar?
Azar de Flávia, que teve que ouvir as divagações de Alice como um padre sem fé e cansado de ouvir pecados mas já muito velho pra abandonar a batina. Flávia era descolada, curtia moda, literatura, cinema, fotografia, até que um dia o vestibular chegou e, fazer o quê, foi fazer medicina, como o pai queria. Da primeira vez que Alice beijou Flávia, não sabia o que sentia, se era nojo, alegria, desapego e até que, no final, venceu a complacência, como já era de se esperar. Felizes até que estavam, mas Alice achava que entre as duas faltava algo, como uma mulher sem razão que sente falta de alguma certeza.
-- Sabe, Flávia, tá tudo certo entre nós, mas acho que não é isso o que eu quero, eu quero algo mais, só não sei o que é...
Ricardo ficou só até começar a praticar o conselho de Alice e deixar de ser um grande babaca -- até a procurou depois, mas Alice não queria alguém que precisasse de seus conselhos, que, se fossem bons mesmo, não os dava de graça. Alice não sei se encontrou o que procurava, mas suspeito que ainda a encontro pra perguntar se ao menos já sabe o que queria. Flávia, coitada, só guardou do sonho filmes velhos de não reveladas fotografias. Doces sonhos... E pra não terminar em tristeza, vale lembrar da Kika, que casou com o Sr. D. Morone e pode ver todos os dias o nascer do sol de frente pro mar, sorte dela que ouvia quando sua mãe dizia: ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez.
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011
essa coisa de tentar parecer algo, ainda que se fosse; esse lance de querer ser notado... Sempre joguei pra trás meu cabelo que insistia em cair pela testa. Agora, olha eu quebrando meus paradigmas novamente.
Tentava, parecer fora do imenso grupo de pessoas conformadas e adaptadas com a "inabalável" e "inquestionável" ordem mundial, mas já era tarde, pois, ao me esforçar para parecer diferente, já estava incluso.
Quando se é impelido para fora do sistema, por, uma vez diferente, não mais fazer parte dele, age-se, conseqüentemente, de maneira diferente, por si próprio. Aqueles que ainda estão presos às ideias e ideais do sistema entendem como mal e errado atitudes fora das convencionais -- "o que não é normal, é mal".
Uma vez fora do convencional, passa-se a enxergar tudo com outros olhos, cada coisa a seu tempo, é o processo natural de mudança, mas não é assim visto por todos. Quem ainda não cria as próprias ideias e usa as herdadas entende o processo de diferenciação como um simples e vazio processo de destruição -- o que é correto, em parte, pois se destrói os velhos conceitos sem sentido --, mas não enxerga a construção de novos conceitos e a compreensão mais ampla do mundo ao redor, sob uma nova perspectiva. Assim, o diferente é visto como uma ameça, a si e/ou aos outros e precisa ser detido, mas nem todos têm a coragem de aproximar-se do diferente para detê-lo, então afasta-se do que desconhece e, subconscientemente, teme.
E, como o incompreendido e diferente é assustador, é também assustador a diferenciação, então permanece-se normal e igual, de modo a abastecer o ciclo dos conformados e adaptados à velha ordem.
P.S.: Nunca curti postar textos antigos, eles sempre se encontravam pela metade ou não condiziam mais com o que eu pensava, mas eu achei esse rascunho aqui, por acaso, tão sociológico que acho que vale a pena e bem que reflete todo o processo de caretização no qual eu me sinto. Lévi-Strauss? Durkheim? Weber? Que nada, análise sociológica é essa aqui hahaha.
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domingo, 23 de outubro de 2011
Sussurro palavras vãs ao vento e espero que ninguém escute -- Então pra que diabo você sussurra? Grita, porra!
Galdi só tinha o futuro; o passado já havia passado e o presente passava tão rápido que já era passado antes que ele se desse conta. Mas todo futuro é ficção -- e foi aí que Galdi percebeu que não havia mais momento nenhum disponível para viver a sua vida, como se ela lhe gritasse "Me deixe em paz, já sei como vou ser e você não pode fazer nada para mudar!", e quem era Galdi para discutir com sua própria vida?! Tão cansado... ele só queria férias! -- mas ninguém pode tirar férias da vida. Ele precisava das respostas, daquela peça que estava faltando, aquilo novo em seu mundo que explicaria tudo -- mas não é o que todo mundo procura?
Galdi era único -- como todos os outros bilhões seres humanos na face da Terra -- e tinha certeza disso. Ele tinha que mudar, sair daquela estagnação, daquela vida sem graça, ele queria guerra, queria revolução! E ele tinha bons planos, ia mostrar ao mundo algo surpreendente, capaz de resolver quase todos os problemas -- era tão simples, como ninguém percebera isso antes? Só lhe faltava conseguir descrever aquilo, transformar em algo real... Mas isso era tarefa pra mais tarde, antes ele tinha que se arrumar e ir para faculdade. Quando chegou já estava muito cansado para pensar em qualquer coisa... no outro dia ele acordou e só o que restava do desejo da noite passada eram rabiscos em pedaços de papel colados na parede que ele tinha certeza que não significariam muita coisa se olhasse, então nem sequer se dava ao trabalho. E aí, como era previsto, sua vida foi dizendo como tinha que ser e ele foi seguindo... Tic-Tac outra vez.
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