segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

No fundo do poço a luz vem de cima e a via é única, difícil é se perder. No dia claro, é luz pra todo lado, de um jeito que o sujeito nem sabe ao certo pra onde ir. Na cova não tem luz, nem ter faria sentido, visto que se o indivíduo tá morto, não tem mais necessidade de iluminação. Isso é de percepção fácil e simples, coisa que qualquer ignorante de nível médio urbano poderia se dar conta. Coisa complexa mesmo era a iluminação da Casa de Espelhos, lugar onde vivia Edgar e onde, pela primeira vez, ele encontrou Clarice.


A Casa de Espelhos ficava em um lugar indefinido, em um plano indeterminado e ninguém sabia ao certo como havia chegado lá, nem qual era o caminho da saída. Se sabia dali que era um lugar só para os loucos, só para os raros, que ali ninguém nascia, de vez em quando alguém lá morria e quase ninguém se entendia.

Clarice tinha na Casa de Espelhos recém-chegado, ainda tava conhecendo o lugar, vendo se ficava ou se ia, como havia chegado, como se saía... Edgar era o coelho branco do lugar, sempre atrasado, correndo pra todo lado, como se soubesse onde ia -- e, pelo visto, até achava que sabia.

Meses inteiros de solidão Clarice teve que enfrentar sozinha, desolada, naquele lugar, o desespero já batia até que lhe surgia a aparente grande ideia de seguir Edgar. De quando em quando Edgar passava por Clarice, às vezes tão apressado na ida que nem a via, mas quando, na volta, Clarice lá estava, parava pra tomar um café, papear um pouco. Pá de lá, pá de cá, Clarice ficou sabendo o que Edgar sempre perseguia: uma luz refletida nos espelhos. Que luz era essa? "Não sei". Porque a perseguia Edgar também não bem sabia, mas uma dia encontrava de onde vinha. "Clarice, essa luz significa alguma coisa.". Clarice, por sua vez, não sabia se era certo acreditar, mas também não tinha uma ideia melhor que explicasse aquele lugar, então foi na onda.

Seguiram juntos o reflexo da luz por muito tempo, corriam pra lá, corriam pra cá... Edgar sempre atrasado, um pouco desajustado, mas nunca desestimulado. Tão lunático era o rapaz e tão observado estava que levou meses pra perceber que, na verdade, ele estava perseguindo a luz sozinho, porque Clarice estava mesmo era seguindo ele. Ele, parou, elucubrou, analisou a situação e decidiu: "a luz que espere, que eu vou atrás agora é de Clarice".

Decisão tomada, tudo já planejado, só faltava mesmo se encontrarem. Quando, decidido, Edgar foi atrás de Clarice e ela já estava lá, esperando sua chegada e eles foram se aproximando até que um tocou o outro foi que eles perceberam: quem Edgar sempre via -- e vice-versa -- não era Clarice, era, em verdade, o reflexo de Clarice refletido nos infinitos espelhos do lugar. Imagine o desespero de Edgar, foi uma correria pra lá, correria pra cá, mas a verdadeira Clarice ele nunca encontrava. Quanto mais se procuravam, mais se perdiam. Muito perspicaz que era, Edgar teve uma ideia e comunicou a Clarice. Seguiriam os dois a luz e o primeiro que chegasse esperaria o outro.

Edgar seguia a luz noite e dia, em uma crença tremenda que um dia a iria alcançar. Clarice seguiu a luz no início, mas a vontade de a luz encontrar não durou muito e ela logo desistiu... Edgar ficou inconformado, gritou, argumentou, ponderou, xingou, mas no fim teve de aceitar, Clarice iria seguir seu próprio caminho.

Nunca mais havia ouvido a voz de Clarice, se perguntava se ela estaria bem naquele lugar tão traiçoeiro... Edgar até deixou de perseguir a luz, simplesmente vagava entre os espelhos não seguindo mais nada, ouvindo apenas o som da própria voz... Sem mais pressa, sem agitação, sem desolação ou desespero, quando se encontrava sereno e conformado, mesmo não a procurando encontrou o que nem mais procurava e quando a viu não conseguiu atribuir a ela nenhum significado, a não ser a de um desejo passado já ultrapassado, que não importava mais, ele viu a luz. A luz era de algo muito maior, inexplicável, mas para que serviria tanta luz do lado de fora se dentro do seu peito a luz que vivia apagada estava sem a presença de Clarice? Edgar apenas viu a luz, não pode ir a seu encontro, só podia pensar, querendo gritar: "Clarice, eu vi a luz!"

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia

domingo, 27 de novembro de 2011

Pelos olhos de Alice, o mundo era grotescamente sem sentido. Não que do lado de dentro dos seus olhos as ideias não se arrumassem em uma lógica aceitável, do lado de fora deles é que os fatos tinham a mesma coerência da felicidade de quem é feliz pelas conquistas dos outros.
Alice amava Ricardo (que amava Kika, que nem amar amava), até que ele a fez desistir dos homens. Eles eram um casal muito feliz, tão felizes que Ricardo nem conseguiu suportar.
-- Então, Alice, é assim, eu me sinto tão bem ao seu lado que não dá pra deixar de pensar que tem alguma coisa errada... eu paro pra pensar e vejo que você nem é tão boa assim, porque porra eu gosto de você?
-- Cara, cala a boca e deixa de ser babaca, deixa eu só continuar te amando.
Ele não calou nem deixou, mas quem sou eu pra julgar?
Azar de Flávia, que teve que ouvir as divagações de Alice como um padre sem fé e cansado de ouvir pecados mas já muito velho pra abandonar a batina. Flávia era descolada, curtia moda, literatura, cinema, fotografia, até que um dia o vestibular chegou e, fazer o quê, foi fazer medicina, como o pai queria. Da primeira vez que Alice beijou Flávia, não sabia o que sentia, se era nojo, alegria, desapego e até que, no final, venceu a complacência, como já era de se esperar. Felizes até que estavam, mas Alice achava que entre as duas faltava algo, como uma mulher sem razão que sente falta de alguma certeza.
-- Sabe, Flávia, tá tudo certo entre nós, mas acho que não é isso o que eu quero, eu quero algo mais, só não sei o que é...
Ricardo ficou só até começar a praticar o conselho de Alice e deixar de ser um grande babaca -- até a procurou depois, mas Alice não queria alguém que precisasse de seus conselhos, que, se fossem bons mesmo, não os dava de graça. Alice não sei se encontrou o que procurava, mas suspeito que ainda a encontro pra perguntar se ao menos já sabe o que queria. Flávia, coitada, só guardou do sonho filmes velhos de não reveladas fotografias. Doces sonhos... E pra não terminar em tristeza, vale lembrar da Kika, que casou com o Sr. D. Morone e pode ver todos os dias o nascer do sol de frente pro mar, sorte dela que ouvia quando sua mãe dizia: ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

essa coisa de tentar parecer algo, ainda que se fosse; esse lance de querer ser notado... Sempre joguei pra trás meu cabelo que insistia em cair pela testa. Agora, olha eu quebrando meus paradigmas novamente.


Agora, nem sequer posso dizer que decidi apresentar quem eu sou pela aparência -- embora fazê-lo eu continue achando impossível, tentarei, ainda que previsto o insucesso --, foi mais por necessidade; não é por querer parecer diferente, é querer parecer mais igual aos que são mais iguais a mim e mais diferente aos que são mais diferentes.


Tentava, parecer fora do imenso grupo de pessoas conformadas e adaptadas com a "inabalável" e "inquestionável" ordem mundial, mas já era tarde, pois, ao me esforçar para parecer diferente, já estava incluso.


Quando se é impelido para fora do sistema, por, uma vez diferente, não mais fazer parte dele, age-se, conseqüentemente, de maneira diferente, por si próprio. Aqueles que ainda estão presos às ideias e ideais do sistema entendem como mal e errado atitudes fora das convencionais -- "o que não é normal, é mal". 


Uma vez fora do convencional, passa-se a enxergar tudo com outros olhos, cada coisa a seu tempo, é o processo natural de mudança, mas não é assim visto por todos. Quem ainda não cria as próprias ideias e usa as herdadas entende o processo de diferenciação como um simples e vazio processo de destruição -- o que é correto, em parte, pois se destrói os velhos conceitos sem sentido --, mas não enxerga a construção de novos conceitos e a compreensão mais ampla do mundo ao redor, sob uma nova perspectiva. Assim, o diferente é visto como uma ameça, a si e/ou aos outros e precisa ser detido, mas nem todos têm a coragem de aproximar-se do diferente para detê-lo, então afasta-se do que desconhece e, subconscientemente, teme.


E, como o incompreendido e diferente é assustador, é também assustador a diferenciação, então permanece-se normal e igual, de modo a abastecer o ciclo dos conformados e adaptados à velha ordem.


P.S.: Nunca curti postar textos antigos, eles sempre se encontravam pela metade ou não condiziam mais com o que eu pensava, mas eu achei esse rascunho aqui, por acaso, tão sociológico que acho que vale a pena e bem que reflete todo o processo de caretização no qual eu me sinto. Lévi-Strauss? Durkheim? Weber? Que nada, análise sociológica é essa aqui hahaha.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sussurro palavras vãs ao vento e espero que ninguém escute -- Então pra que diabo você sussurra? Grita, porra!

Galdi só tinha o futuro; o passado já havia passado e o presente passava tão rápido que já era passado antes que ele se desse conta. Mas todo futuro é ficção -- e foi aí que Galdi percebeu que não havia mais momento nenhum disponível para viver a sua vida, como se ela lhe gritasse "Me deixe em paz, já sei como vou ser e você não pode fazer nada para mudar!", e quem era Galdi para discutir com sua própria vida?! Tão cansado... ele só queria férias! -- mas ninguém pode tirar férias da vida. Ele precisava das respostas, daquela peça que estava faltando, aquilo novo em seu mundo que explicaria tudo -- mas não é o que todo mundo procura?
Galdi era único -- como todos os outros bilhões seres humanos na face da Terra -- e tinha certeza disso. Ele tinha que mudar, sair daquela estagnação, daquela vida sem graça, ele queria guerra, queria revolução! E ele tinha bons planos, ia mostrar ao mundo algo surpreendente, capaz de resolver quase todos os problemas -- era tão simples, como ninguém percebera isso antes? Só lhe faltava conseguir descrever aquilo, transformar em algo real... Mas isso era tarefa pra mais tarde, antes ele tinha que se arrumar e ir para faculdade. Quando chegou já estava muito cansado para pensar em qualquer coisa... no outro dia ele acordou e só o que restava do desejo da noite passada eram rabiscos em pedaços de papel colados na parede que ele tinha certeza que não significariam muita coisa se olhasse, então nem sequer se dava ao trabalho. E aí, como era previsto, sua vida foi dizendo como tinha que ser e ele foi seguindo... Tic-Tac outra vez.