domingo, 28 de fevereiro de 2010

O que buscava era o desespero...

tentava perder a noção de certo e errado; buscava tudo que estivesse fora de domínio, além da racionalidade.

O mundo costumava estar sob seu controle. Os fenômenos da Natureza eram previsíveis, os desastres naturais, as reações humanas, os pormenores da vida... Estava tudo sob seu controle. Em alguns momentos sentiu até si próprio como alguém previsível; sentiu que era impotente, apesar do domínio que detinha sobre seu meio.

Procurava em suas lembranças algum momento de fraqueza, um momento em que o mundo houvera sido mais surpreendente, onde as pessoas tivessem sido mais interessantes, mas nunca encontrava. Talvez tal momento jamais tenha existido, talvez ele apenas perdera tal recordação. Mas agora já não importa.

Ele só queria esquecer, queria sentir-se frágil e impotente por alguns instantes, para, então, experimentar novamente a ascensão e sentir mais uma vez como é tornar-se forte.

Aquela noite transcorria normalmente: estava só em sua casa escura, haviam poucas variáveis e tudo era previsível como de costume. Era sábado, noite de festas e ideal para seu plano.
Foi ao quarto, buscou sua mochila e seguiu até o bar onde guardava suas bebidas. Pôs as mais fortes na mochila, pegou a chave do carro e seguiu rumo a rodovia principal.

A via era larga e havia um acesso para carros a cara cem metros, coincidindo com os semáforos. Para seu azar, quando chegou estavam todos abertos. Parou em frente ao primeiro sinal verde enquanto bebia o que restava da garrafa de Ballantines e abria outra. Quando o finalmente surgiu o sinal vermelho ele acelerou o quanto podia. Os semáforos eram sincronizados e ele sabia que se seguisse àquela velocidade os encontraria vermelhos pelos próximos dois quilômetros e meio.

Enquanto corria pensava no paradoxo da sua situação. Tinha que arriscar sua vida para salva-la. Pensava em muitas coisas, remensurava sua situação, mas sabia que estava fazendo o que tinha que fazer. Ficou preocupado ao final do segundo quilômetro quando nenhum outro carro surgiu de uma das ruas perpendiculares para colidir com o seu. Poderia colidir com um poste, mas dessa forma não seria um ato de irresponsabilidade suficiente. Perto do fim da via, encontrou o que procurava.

Da antepenúltima via perpendicular surgiu uma ambulância com a sirene desligada. Seu conversível capotou duas vezes no ar antes de regressar ao chão com as rodas voltadas para baixo e colidir a sessenta e cinco quilômetros por hora com o poste. Se não houvesse desmaiado, ele teria visto os paramédicos saírem da ambulância capotada de lado para lhe salvarem a vida. Se o cinto de segurança e a bolsa de ar do seu carro não houvessem lhe protegido, a saida dos paramédicos da ambulância haveria sido em vão. Mas tudo ocorreu como esperado.

O blecaute na rua e os estragos numa via tão movimentada lhe rendeu muitos repórteres na frente do hospital em que fora internado. Uma semana depois do acidente, ainda pode ver na televisão do seu quarto de hospital notícias sobre o incidente que havia causado.

Havia muito a se explicar, muitos o buscariam entender, seria ele assunto de debates por algum tempo, haveria de ser odiado e perdoado. Ele agora poderia experimentar uma infinidade de novas sensações, veria o mundo com outros olhos assim como o mundo agora o via, e era isso que ele buscava. Saiu do hospital e confirmou todas suas expectativas em relação ao mundo, parecia tudo novo, embora fosse tudo por ele planejado. Ele estava salvo.

Um comentário:

sobrefatalismos disse...

Perfeição demais irrita. Eu também ´procuro, desesperadamente por desesperos contínuos.