domingo, 24 de abril de 2011

Ele era uma doença...

...e os traços de sua personalidade não passavam de sintomas em um prontuário médico qualquer.

Demorou a descobrir, mas descobriu aquilo que mudava tudo, do passado, do presente e do futuro, ainda que digam que o passado é imutável e o futuro ainda há de se modificar. Essa foi uma revelação, das quais se há muito poucas, que sobrepõe o tempo e tudo modifica.

Era ele uma doença mais que no sentido metafórico, ele a era de fato. A doença era tão dele e ele era tão dela quanto qualquer coisa a uma coisa outra pode ser. A ponto de se poder dizer, atropelando os ideais científicos naturais e linguísticos, que eles eram um só.

Só ele sabia como era ficar feliz com uma notícia ruim, ficar feliz querendo estar triste -- ou o inverso -- ou ficar feliz e triste ao mesmo tempo. Só ele sabia o que era não conseguir levar nada realmente à sério, porque de um segundo pro outro tudo ganhava ou perdia todo seu valor. Só ela sabia o que era amar alguém e, antes que se pudesse contar até dois, desprezar esse mesmo alguém, sem nem mesmo saber porque. Só ele sabia o que era agir sem ter controle sobre si mesmo e no instante seguinte arrepender-se e não poder mais voltar atrás inúmeras vezes. Só ele sabia o que era descobrir que ele sempre foi não era ele, era o que chamavam de doença e propunham tratamento...

Podia livrar-se do seu passageiro sombrio com uma simples pílula de lítio, mas o que restaria dele, se tudo nele estava mesclado à "doença" e seria esta "curada"? Ele não seria mais, ele se "desseria".

Deveria ele ceder a isso que não sabia ao certo se era um espremedor de culhões ou a sorte em formato de pílula que Van Gogh não teve?

O paradoxo e a gozação da vida naquilo tudo era que ao tomar a pílula talvez estivesse suicidando sua personalidade e ao não tomar, ao que diziam, estaria mais perto do suicídio real.


PostScriptum:
Ainda que, creio, pelo texto se possa deduzir, este mesmo texto, como tantos outros, terminou sem um final condizente porque deixei de enxergar qualquer razão para o continuar escrevendo... assim como já não vejo razão para prosseguir com este ps.

3 comentários:

Mika disse...

Não ouso acreditar que essa doença pode controlar uma pessoa de tal forma que vira tudo o que o ser é. Mas sei muito bem como pode ser complexo diferenciar qual ponto é a pessoa sendo ela mesma, e qual ponto é a doença tomando conta...

sobrefatalismos disse...

Oi sumido.
Você parece Kafka.
Mas leia Antonio Lobo Antunes.

cecília disse...

Fiquei perdida lendo. Como você está?